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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Caminho (I)

Tenho sonhos cruéis: n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração de um véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,

sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
por que é só madrugada quando chora.

+*+Camilo Pessanha*+*+

* Coimbra - Portugal, 7 de setembro de 1867
+ Macau - China, 1 de março de 1926

*Camilo Almeida Pessanha
Caminho (II)

Encontraste-me um dia no caminho
em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
que a jornada é maior indo sozinho,

é longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que pousaste, onde pousei,
bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha de um calvário,
e queima como a areia!... Foi no entanto

que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
tivemos de beber do mesmo pranto.

+*+Camilo Pessanha*+*+

* Coimbra - Portugal, 7 de setembro de 1867
+ Macau - China, 1 de março de 1926

*Camilo Almeida Pessanha

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ao longe os barcos de flores

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil*, na escuridão tranqüila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
-Festões** de som dissimulando a hora,

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta***, detém. Só modulada trila
A flauta flébil****... Quem há-de remi-la*****?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta, chora...

+*+Camilo Pessanha*+*+
in Clepsidra

Vocabulário

*grácil - delgado, delicado, fino;
**festão - ramalhete de flores e folhagens, grinalda;
***cauta - acautelada, com cautela;
****flébil - lacrimoso, choroso, lastimoso, plangente, débil, fraco.

*Camilo Almeida Pessanha

* Coimbra - Portugal, 7 de setembro de 1867
+ Macau - China, 1 de março de 1926 1926



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Violoncelo

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por debaixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trêmulos astros...
Solidões lacustres...
– Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

+*+Camilo Pessanha*+*+
in Clepsidra, 1945

*Camilo Almeida Pessanha

* Coimbra - Portugal, 7 de setembro de 1867
+ Macau - China , 1 de março de 1928