Canção Molhada
Gotas de som molhado
Caem lá fora,
Num ruído triste...
É o silêncio gelado
Da noite que chora
Sobre tudo o que existe.
E a minha mágoa
Naquelas gotas de água
Parece encarnar.
Vago na sombra escura...
Sou morto sem sepultura
E sou nuvem a chorar...
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
in Terra Proibida, 1899
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domingo, 22 de março de 2009
Depois da vida
Quando meu coração parar desfeito
Em sombra, na profunda sepultura,
E o meu ser, já fantástico e perfeito,
Vaguear entre o Infinito e a terra dura;
Quando eu sentir, enfim, todo o meu peito
A transformar-se em constelada Altura;
Eu, divino Fantasma, claro Eleito,
O Enviado da Vida à Morte escura;
Quando eu for minha lúcida esperança,
Meu próprio amor jamais anoitecido,
E minha sombra for apenas lembrança;
Quando eu for um espectro de Saudade,
Entre o luar e a névoa amanhecido,
Serei contigo, Amor, na Eternidade.
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
in Elegias, 1912
Quando meu coração parar desfeito
Em sombra, na profunda sepultura,
E o meu ser, já fantástico e perfeito,
Vaguear entre o Infinito e a terra dura;
Quando eu sentir, enfim, todo o meu peito
A transformar-se em constelada Altura;
Eu, divino Fantasma, claro Eleito,
O Enviado da Vida à Morte escura;
Quando eu for minha lúcida esperança,
Meu próprio amor jamais anoitecido,
E minha sombra for apenas lembrança;
Quando eu for um espectro de Saudade,
Entre o luar e a névoa amanhecido,
Serei contigo, Amor, na Eternidade.
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
in Elegias, 1912
Tu que desceste enfim à negra vala,
Sem que ouvisses um grito o lamento,
A grande voz do mar que vos embala,
A voz dos pinheirais e a voz do vento...
Tu que não viste a luz do Firmamento
E nem soubeste, em êxtase, adorá-la;
Tu que nunca tiveste o sentimento
Do aroma triste que uma flor exala!...
Tu que não choras, vendo uma for morta
Ou um pobre que bate à tua porta,
No redentor suspiro derradeiro,
Nunca foste, meu triste semelhante,
Nem por acaso, apenas por um instante,
Durante a vida, um homem verdadeiro...
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
in Sempre, 1898
AbismosPor abismos sem fim, vou caminhando...
E o mais profundo abismo é o alto céu
E que vertigens sempre sinto, quando
Me inclino sobre a luz que amanheceu!
É um abismo a oração que vou rezando.
É um mar sem fundo a flor que renasceu...
Nas palavras que vou pronunciando,
Cada idéia é tão alta como o céu!
Sobre abismos, caminho dia a dia...
Das suas negras trevas se irradia
Uma outra escuridão ainda maior..
Que a mim me diz, nas horas em que cismo,
Que é um abismo junto d’outro abismo,
Meu coração ao pé do seu amor!...
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
in Sempre, 1898
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
No seu túmulo
Sobre o seu fundo berço sepulcral
Meu espírito reza, ajoelhado.
E sente-se o mais belo e virginal,
Na sua dor concentrado.
Caí, gotas de orvalho matinal!
Astros, caí do céu todo estrelado!
Secas folhas do zéfiro outonal,
Vinde enfeitar-lhe o túmulo sagrado.
Ó luar da meia-noite, encantamento
Da sombra vem cobri-lo! Ó doido vento,
Não grites, baixa a voz lamuriosa.
Silêncio, aves noturnas do arvoredo>
Porque ele é pequenino e há de ter medo,
Lá nos seios da terra tenebrosa.
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
In Vida Etérea
Sobre o seu fundo berço sepulcral
Meu espírito reza, ajoelhado.
E sente-se o mais belo e virginal,
Na sua dor concentrado.
Caí, gotas de orvalho matinal!
Astros, caí do céu todo estrelado!
Secas folhas do zéfiro outonal,
Vinde enfeitar-lhe o túmulo sagrado.
Ó luar da meia-noite, encantamento
Da sombra vem cobri-lo! Ó doido vento,
Não grites, baixa a voz lamuriosa.
Silêncio, aves noturnas do arvoredo>
Porque ele é pequenino e há de ter medo,
Lá nos seios da terra tenebrosa.
+*+Teixeira de Pascoaes+*+
In Vida Etérea
Nota sobre o autor:
Seu verdadeiro nome é Joaquim Teixeira de Vasconcelos.
Nasceu em 1877 e faleceu em 1952.
Sua obra é extensa, abrangendo versos, prosa biográfica e doutrinaria, e teatro, é marcada por um profundo lusitanismo.
Foi o fundador do saudosismo e da revista “Águia”
Viveu uma vida solitária e bucólica.
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