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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema
o gás a luz o telefone
a sonegação do leite
da carne do açúcar
do pão
O funcionário publico
Não cabe no poema
Com seu salário de fome
Sua vida fechada
Em arquivos.

Como mão cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
Está fechado
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede nem cheira.

+*+Ferreira Gullar+*+

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem .

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

+*+Ferreira Gullar+*+

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Dois e dois quatro

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena
como azul é o oceano
e a lagoa, serena.

Como um tempo de alegria
por trás de terror me acena
e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena.

Sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

+*+Ferreira Gullar+*+