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terça-feira, 5 de maio de 2009

Língua portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga* impura
a bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor**, lira singela,
que tens o trom*** e o silvo da procela****,
e o arrolo***** da saudade e da ternura.

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
de virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “Meu filho!”
e em que Camões chorou, no exílio amargo,
o gênio sem ventura e o amor sem brilho.

+*+Olavo Bilac+*+

* Rio de Janeiro, 1865
+ Rio de Janeiro, 1918


Vocabulário

*Ganga - Resíduo, em geral não aproveitável, de uma jazida filoniana, o qual pode, no entanto, em certos casos, conter substâncias economicamente úteis.
**Clangor - Som rijo e estridente como o de certos instrumentos metálicos de sopro, como, p. ex., a trompa e a trombeta.
***Trom - estrondo produzido por tiros de artilharia; som do trovão.
****Procela - Tempestade marítima.
*****Arrolo - Canto para adormecer crianças.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
deixei dormir a minha maldição,
hoje, velha e cansada da amargura,
minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em tormentos de cólera e loucura,
sobre a tua cabeça ferverão
vinte anos de silêncio e tortura,
vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

+*+Olavo Bilac*+*+

* Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865
+ Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918

*Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Via Láctea

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouví-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio* aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

+*+Olavo Bilac*+*+

* Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865
+ Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918

Vocabulário

*pálio - manto, capa.

*Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Velhas árvores

Ó estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem,a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos alteiam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem.

+*+Olavo Bilac*+*+

* Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865
+ Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918

*Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac