sábado, 25 de julho de 2009

Desejo
[Hora de delírio]

Se além dos mundos esse inferno existe,
Essa pátria de horrores,
Onde habitam os tétricos tormentos,
As inefáveis dores;

Se ali se sente o que jamais na vida
O desespero inspira:
Se o suplício maior que a mente finge,
A mente ai respira;

Se é de compacta, de infinita brasa
O solo que pisa:
Se é fogo, e fumo, e súlfur, e terrores
Tudo que ali se visa;

Se ali se goza um gênero inaudito
De sensações terríveis;
Se ali se encontra esse real de dores
Na vida não possíveis;

Se é verdade esse quadro que imaginam
As seitas dos cristãos;
Se esses demônios, anjos maus, ou fúrias,
Não são erros vãos;

Eu – que tenho provado neste mundo
As sensações possíveis;
Que tenho ido da afecção mais terna
Às pernas mais incríveis;

Eu – que tenho pisado o colo altivo
De vária e muita dor;
Que tenho sempre das batalhas dela
Surgido vencedor;

Eu – que tenho arrostado imensas mortes,
E que pareço eterno;
Eu quero morrer pra sempre,
Entrar por fim o inferno!

Eu quero ver se encontro ali no abismo
Um tormento invencível:
– Desses que achá-los na existência toda
Jamais será possível!

Eu quero ver se encontro alguns suplícios
Que o coração me domem;
Quero lhe ouvir esta palavra incógnita:
– “Chora por fim, – que és homem!”

Que de arrostar as dores desta vida
Quase pareço eterno!
Estou cansado de vencer o mundo:
Quero vencer o inferno!

+*+Junqueira Freire+*+
in Contradições poéticas

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