terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

+*+Alexandre O'Niel*+*+

*Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Niel de Bulhões

* Lisboa - Portugal, 19 de dezembro 1924
+ 1986

imagem: Jan Saudek
Intervalo amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

+*+Affonso Romano de Sant'Anna+*+
in Intervalo amoroso e outras poesias

* Belo Horizonte, 27 de março de 1937

Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

+*+Affonso Romano de Sant'Anna+*+

* Belo Horizonte, 27 de março de 1937

A forca

Já que adorar-me dizes que não podes,
imperatriz serena, alva e discreta,
ai, como no teu colo há muita seta
e o teu peito é peito de um Herodes.

Eu antes que encaneçam meus bigodes
ao meu mister de amar-te hei de pôr meta,
o coração mo diz – feroz profeta
que anões faz do colossos lá de Rodes.

E a vida depurada no cadinho
das eróticas dores do alvoroço,
acabará na forca, num azinho,

mas o que há de apertar o meu pescoço
em lugar de ser corda de bom linho
será do teu cabelo um menos grosso.

+*+Cesário Verde*+*+

* Lisboa, 25 de fevereiro de 1855
+ Lumiar, 19 de julho de 1886

*José Joaquim Cesário Verde
O Rebelde

É um lobo do mar: numa espelunca
mora, à beira do oceano, em rocha alpestre.
Ira-se a onda e, qual tigre silvestre,
de mortos vegetais a praia junca,

e ele, olhando como um velho mestre
o revoltoso que não dorme nunca,
recurva o dedo como garra adunca
sobre o cachimbo, único amor terrestre.

E então assoma-lhe um sorriso amargo...
É um rebelde também, cérebro largo,
que odeia os reis e os padres excomunga.

À noite, dorme sem rezar: que importa?
Enorme cão fiel, guarda-lhe a porta
o velho mar soturno que resmunga.

+*+Lúcio de Mendonça*+*+

* Barra do Piraí - RJ, 10 de março de 1854
+ Rio de Janeiro, 23 de novembro de 1909

*Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça
Eu que tenho no olhar...


Eu que tenho no olhar o incoercível dente
que aguilhoa a carne os sonhos bestiais,
e tenho as atrações nervosas da serpente
com que Jeová tentou nossos primeiros pais;

eu, a mulher perdida, a cínica indolente,
a torpe barregã* de olhos sentimentais,
que ando de mão em mão escandalosamente
como as cartas de jogo e os livros sensuais;

eu, negra flor do mal, silenciosa e calma,
eu, que cheguei a ter escrófulas** na alma
e abri um lupanar*** dentro do coração;

ao ver teu olhar, o teu olhar sombrio,
ó canalha gentil, ó pálido vadio,
eu, que desprezo o amor, amo-te, D. João!

+*+Guerra Junqueiro+*+

* Freixo-da-Espada- à-Cinta - Trás-os-Montes 17 de setembro de , 1850
+ Lisboa, 7 de julho de 1923

Vocabulário

*Barregã - Comcubina
**Escrófulas -
Localização primária de infecção tuberculosa em gânglios linfáticos do pescoço, e que se acompanha, com freqüência, de abscessos que se desenvolvem lentamente, e de fístulas.
***Lupanar - Prostíbulo
Rosa mística

Do pôr-do-sol àquela luz sagrada,
eu perdia-me... ó hora doce e breve!...
Meu peito junto ao seu colo de neve,
numa contemplação grave e elevada.

Nossas almas se erguiam, como deve
erguer-se uma alma à luz afortunada.
Do mar se ouvia a grande voz chorada.
Palpitavam as pombas no ar leve.

Eu então perguntei-lhe, baixo e brando:
– Em que mundos de luz é que caminhas?
Que torre está a tua alma arquitetando?...

Ela, travando as suas mãos das minhas,
me disse, ingênua, então: – Estou cismando
no que dirão, no ar, as andorinhas.

+*+Gomes Leal+*+

* Lisboa, 6 de junho de 1848
+ Lisboa, 29 de janeiro de 1921
Marieta

Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
preludia um violão na serenata.

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...

+*+Castro Alves+*+

* Muritiba - BA, 14 de março de 1847
+ Salvador, 6 de julho de 1871

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Elegias Romanas

Falai-me, ó pedras! oh falai, vós altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta avisto
Um dia o ser belo que queimando me alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios, ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só templo,
O templo do Amor, que se abra e receba o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.

+*+Johann Wolfgang von Goethe+*+

* Frankfurt am Main, 28 de agosto de 1749
+ Weimar, 22 de março de 1832

imagem: Dante Gabriel Rossetti
Anelo

Só aos sábios o reveles
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo

Na noite – em que te geraram,
Em que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! E nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voa para a luz em que ardes.

"Morre e transmuta-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Como vem da cana o sumo
Que os paladares adoça,
Flua assim da minha pena,
Flua o amor o quanto possa.

+*+Johann Wolfgang von Goethe+*+

* Frankfurt am Main, 28 de agosto de 1749
+ Weimar, 22 de março de 1832
Alcachofra

Não é em altura que seu arbusto
se ombreia com o pinheiro:
é pela fruta.
Íntima amiga da geometria,
do pinho tão só se distancia
pela recusa à agreste armadura.
Nenhum lampejo de indiferença
machuca-lhe a vestimenta:
antes a luz emprega no fabrico da alma
tenra (que lateja),
parente do alegre bem-me-quer,
do espelhante girassol.

Pertença da floricultura e da boa
mesa, ornamenta o paladar
com a lembrança das nascentes:
não são de lâmina as escamas,
mas (degustáveis) dádivas mediterrâneas
dispostas no coração em tranca.
Apenas pequenas setas mantém
(em íntima contenda)
a provocar torneios entre língua e dentes.

– Cota de cavaleiro andante,
em que terna demanda atuas?
+*+Maria Lúcia Dal Farra+*+

Puberdade

Na cozinha
mamãe espreita o bolo de morango com coco
recém-tirado do forno.
Besunta-o agora com a calda
(que o ata).
Da varanda vejo a massa operosa das nuvens
que se juntam para a chuva.
Furo o bolo com o dedo.
O sumo transborda:
a tarde está molhada de vermelho.

+*+Maria Lúcia Dal Farra+*+

Trevas

Eu tive um sonho que não era em todo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - Veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; As cidades consumiam-se
E os homens juntavam-se junto às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes enquanto residiam bem à vista
Dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as florestas - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu,
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam para a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chagavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Dois inimigos que vieram a encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles a resolveram
E trêmulos rasparam, com as mãos esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
E para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de arremedo; então alçaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
- Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara o nome "Diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era uma informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a escuridão não precisava
De seu auxílio - as trevas eram o Universo.

+*+Byron*+*+

*George Gordon Byron

imagem: Gustave Doré

* Londres, 22 de janeiro de 1788
+ Missolonghi, 19 de abril de 1824

Adeus

Adeus! e para sempre embora,
Que seja para nunca mais:
Sei teu rancor - mas contra ti
Não me rebelarei jamais.

Visses nu meu peito, onde a fronte
Tu descansavas mansamente
E te tomava um calmo sono
Que perderás completamente:

Que cada fundo pensamento
No coração pudesses ver!
Que estava mal deixá-lo assim
Por fim virias a saber.

Louve-te o mundo por teu ato,
Sorria ele ante a ação feia:
Esse louvor deve ofender-te,
Pois funda-se na dor alheia.

Desfigurassem-me defeitos:
Mão não havia menos dura
Que a de quem antes me abraçava
Que me ferisse assim sem cura?

Não te iludas contudo: o amor
Pode afundar-se devagar;
Porém não pode corações
Um golpe súbito apartar.

O teu retém a sua vida,
E o meu, também, bata sangrando;
E a eterna idéia que me aflige
É que nos vermos não tem quando.

Digo palavras de tristeza
Maior que os mortos lastimar;
Hão de as manhãs, pois viveremos,
De um leito viúvo despertar.

E ao achares consolo, quando
A nossa filha balbuciar,
Ensiná-la-ás a dizer "Pai",
Se o meu desvelo vai faltar?

Quando as mãozinhas te apertarem
E ela teu lábio -houver beijado,
Pensa em mim, que te bendirei
Teu amor ter-me-ia abençoado.

Se parecerem os seus traços
Com os de quem podes não mais ver,
Teu coração pulsará suave,
E fiel a mim há de tremer.

Talvez conheças minhas faltas,
Minha loucura ninguém sabe;
Minha esperança, aonde tu vás,
Murcha, mas vai, que ela em ti cabe.

Abalou-se o que sinto; o orgulho,
Que o mundo não pôde curvar,
Curvou-se a ti: se a abandonaste,
Minha alma vejo-a a me deixar.

Tudo acabou - é vão falar -,
Mais vão ainda o que eu disser;
Mas forçam rumo os pensamentos
Que não podemos empecer.

Adeus! assim de ti afastado,
Cada laço estreito a perder,
O coração só e murcho e seco,
Mais que isto mal posso morrer.

+*+Byron*+*+

* Londres, 22 de janeiro de 1788
+ Missolonghi, 19 de abril de 1824

*George Gordon Byron


Odor di Femina

Era austero e sisudo; não havia
frade mais exemplar nesse convento;
no seu cavado rosto macilento
um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
folheava o triste um livro pardacento,
viram-no desmaiar, cair do assento,
convulso, e torvo sobre a laje fria.

De que morrera o venerado frade?
Em vão busco as origens da verdade,
ninguém m’a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliófilo comprara
o livro estranho e que, ao abri-lo, achara
uns dourados cabelos de mulher.

+*+Gonçalves Crespo+*+

* Rio de Janeiro, 1846
+ Lisboa, 1883
Divina Comédia

Erguendo os braços para o céu distante
e apostrofando os deuses invisíveis,
os homens clamam: – Deuses impassíveis,
a quem serve o destino triunfante.

por que é que nos criastes?! Incessante
corre o tempo e só agora, inextinguíveis,
dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
num turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
do nada e do que ainda não existe,
ter ficado a dormir eternamente?

Por que é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
dizem: – Homens, por que é que nos criastes?!

+*+Antero de Quental+*+

* Ponta Delgada - Açores - 1842
+ Ponta Delgada - Açores - 1891
Visita a casa Paterna

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
e fantasma talvez do amor materno,
tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
e passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala (oh, se me lembro, e quanto!)
em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe... O pranto

jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade!

+*+Luis Guimarães Junior+*+

* Rio de Janeiro, 1841
+ Lisboa, 1898

Última vontade

O corpo num lençol, e assim metido
em minha mãe, donde nasci, a terra,
Nada o som do bronze, um som que aterra,
que descontenta um delicado ouvido.

Ninguém ouse soltar um só gemido
junto da cova que meu corpo encerra:
longe, a minh’alma em outros mundos erra,
dêem-lhe paz de um sempiterno olvido.

Nada de luto, de sanefas pretas;
onde eu fique, um recôndito jardim,
onde ela, a mais divina das Julietas,

se por acaso lembrar de mim
possa colher um ramo de violetas
com que inflore o seu peito de cetim.

+*+João Penha+*+

* Braga - Minho, 1839
+ Braga - Minho, 1919

Os seios

Nunca te vejo o peito arfar de enleio,
quando de amor ou de prazer te ébrias,
que não ouça lá dentro as fugidias
aves, baixo alternando algum gorjeio...

Aves são, e são duas aves, creio,
que em ti mesmas nascera, e em ti crias,
ao arrulhar de castas melodias,
no aroma quente e ebúrneo do teu seio;

têm de uns astros irmãos o movimento,
ou de dois lírios, que balouça o vento,
o giro doce, o lânguido vaivém.

Oh! quem me dera ver no próprio ninho
se brancas são, como mais branco arminho,
ou se asas, como as outras pombas, têm...

+*+Luis Delfino+*+

* Florianópolis, 1834
+ Rio de Janeiro, 1910
Soneto

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
apenas entre nós – e eu vivia
no doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
é sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!

+*+Alvares de Azevedo+*+

* São Paulo, 1831
+ São Paulo, 1852
O seu nome

Ela não sabe a luz suave e pura
que derrama numa alma acostumada
a não ver nunca a luz da madrugada
vir raiando, senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
ver esta vista, de chorar cansada,
a ela... única nuvem prateada,
única estrela dessa noite escura!

E mil anos que leve a Providência
a dar-me este degredo por cumprido,
por acabada já tão longa ausência,

ainda nesse instante apetecido
será meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu último gemido.

+*+João de Deus+*+

* São Bartolomeu de Messines - Algarve, 1830
+ Lisboa, 1896
Baixei veloz, que ao úmido elemento

Baixei veloz, que ao úmido elemento
a voz do nauta experto afoito entrega,
demora o curso teu, perto navega
da terra onde me fica o pensamento!

Enquanto vis cortando o salso argento,
desta praia feliz não se desprega
(meus olhos, não, que amargo pranto os rega)
minha alma, sim, e o amor que é meu tormento.

Baixel*, que vais fugindo despiedado
sem temor dos contrastes da procela,
volta ao menos, qual vais tão apressado.

Encontre-a eu gentil, mimosa e bela!
E o pranto que ora verto amargurado
possa eu verter então nos lábios dela!

+*+Gonçalves Dias

Vocabulário

*baixel - Barco ou navio.

* Caxias -MA, 1823
+ No mar, perto de Guimarães - MA, 1864
Formosa

Formosa, qual pincel em tela fina
debuxar jamais pôde ou nuca ousara;
formosa, qual jamais desabrochara
na primavera rosa purpurina;

formosa, qual se a própria mão divina
He alinhara o contorno e a forma rara;
formosa, qual jamais no céu brilhara
astro gentil, estrela peregrina;

formosa, qual se a natureza e a arte,
dando as mãos em seus dons, em seus lavores,
jamais soube imitar no todo ou parte;

mulher celeste, ó anjo de primores!
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?

+*+Maciel Monteiro+*+

* Recife, 1804
+ Lisboa, 1868
Retratar a Tristeza...

Retratar a tristeza em vão procura
quem na vida um só pesar não sente,
porque sempre vestígios de contente
hão de surgir por baixo da pintura;

porém eu, infeliz, que a desventura
o mínimo prazer me não consente,
em dizendo o que sinto, a mim somente
parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
dos pesares o mais cruel pesar,
sinto do que perdi tristes lembranças;

condenam-me a chorar, e a não chorar,
sinto a perda total das esperanças,
e sinto-me morrer sem acabar.

+*+Marquesa de Alorna+*+

* Lisboa, 1750
+ Lisboa, 1839
Enganei-me, enganei-me - paciência!

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Acreditei as vozes, cri, Ormia,
que a tua singeleza igualaria
à tua mais que angélica aparência.

Enganei-me, enganei-me – paciência!
Ao menos conheci que não devia
pôr nas mãos de uma externa galhardia
o prazer, o sossego, e a inocência.

Enganei-me, cruel, com teu semblante,
e nada me admiro de faltares,
que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdeste mais em me enganares:
que tu não acharás um firme amante,
e eu posso de traidoras ter milhares.

+*+Tomás Antônio Gonzaga+*+

* Porto, 1744
+ Moçambique. 1810
Eu não lastimo o próximo perigo

Eu não lastimo o próximo perigo,
uma escura prisão, estreita e forte,
lastimo os caros filhos, a consorte,
a perda irreparável de um amigo.

A prisão não lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.

Ah, quão depressa então acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!

Se filhos, se consorte não tivera,
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu não quisera.

+*+Alvarenga Peixoto*+*+

* Inácio José de Alvarenga Peioxoto

* Rio de Janeiro, 1744
+ Ambaca - Angola, 1792

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Eu vi a linda Jônia...

Eu vi linda Jônia e, namorado
fiz logo eterno voto de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela
que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.

Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela não me quer, por inconstante.

Vem, Cupido, soltar-me desses laços:
ou faze desses dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!

+*+Alvarenga Peixoto*+*+

*Inácio José de Alvarenga Peixoto

* Rio de Janeiro, 1744
+ Ambaca - Angola, 1792
Já, Marfiza cruel, me não maltrata

Já, Marfiza cruel, não me maltrata
saber que usas comigo de cautelas,
que inda te espero ver, por causa delas,
arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
teus olhos deixarão de ser estrelas;
verás murchar no rosto as faces belas,
e as tranças de ouro converter-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
por força há se sofrer da idade os danos,
por que me negas hoje esta ventura?

guarda para seu tempo os desenganos,
gozemo-nos agora, enquanto dura,
já que dura tão pouco a flor do anos.

+*+Basílio da Gama+*+
imagem: Monet - Lady with a parasol

* São José do Rio das Mortes - MG, 1741
+ Lisboa, 1795
Passei o rio que tornou atrás

Passei o rio que tornou atrás,
se acaso é certo o que Camões nos diz,
em cuja ponte um bando de aguazis
registram tudo quanto a gente traz.

Segue-se um largo. Em frente dele jaz
longa fileira de baiúcas vis.
Cigarro aceso, fumo no nariz,
é como a companhia ali se faz.

A cidade por dentro é fraca rês;
as moças põem mantilhas e andam sós,
têm boa cara, mas não têm bons pés.

Isto, coifas de prata e de retrós,
e a cada canto um sórdido marquês,
foi tudo quanto vi em Badajoz.

+*+Nicolau Tolentino+*+

* Lisboa, 1740
+ Lisboa, 1811
Ai Nise amada...


Ai Nise amada! se este meu tormento,
se estes meus sentidíssimos gemidos
lá no teu peito, lá nos teus ouvidos
achar pudessem brando acolhimento;

como alegre em servir-te, como atento
meus votos tributara agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos
trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrastável pedra dura
de teu rigor não há correspondência
para os doces afetos de ternura,

cesse de meus suspiros a veemência;
que é fazer mais soberba a formosura
adorar o rigor da resistência.

+*+Claudio Manuel da Costa+*+

* Ribeirão do Carmo (Mariana), 1729
+ Vila Rica (Ouro Preto), 1789
Quem de meus versos a lição procura

Quem de meus versos a lição procura,
os farpões nunca viu de amor insano,
nem sabe quanto custa um vil engano
traçado pela mão da formosura.

Se o peito não tiver de rocha dura,
fuja de ouvir contar tamanho dano,
que a desabrida voz do desengano
o mais firme semblante desfigura.

Olhe, que há de chorar, vendo patente
em tão funesta, e lagrimosa cena
o cadafalso infame, e sanguinoso.

verá levado à morte um inocente:
e condenado à vergonhosa pena
o mais fiel amor, mais generoso.

+*+Correia Garção+*+

* Lisboa, 1724
+ Lisboa, 1772

Falando com Deus

Só vos conhece, amor, quem se conhece,
só vos entende bem quem bem se entende,
só quem se ofende assim não vos ofende,
e só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce,
só é senhor de si quem se vos rende,
só sabe pretender quem vos pretende,
e só sabe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde tudo ganha,
pois tudo quanto há tudo em vós cabe;
ditoso quem no vosso amor se inflama,

pois faz troca tão alta e tão estranha,
mas só vos pode amar o que vos sabe,
só vos pode saber o que vos ama.

+*+Jerônimo Bahia+*+

* Coimbra, 1628?
+ São Romão do Neiva - Minho, 1688
Contra as fadigas do desejo

E quem me compusera do desejo,
que grande bem, que grande paz me dera!
Ou, por força, com ele hoje fizera,
que me não vira, enquanto assim me vejo!

O que eu reprovo, elege; e o que eu elejo
ele o reprova, como se tivera
sortes a seu mandar, em que escolhera,
contra as quais só por ele em vão pelejo.

Anda a voar do árduo ao impossível:
e para me perder de muitos modos,
finge que a hora é certa no perigo.

Pois se nunca pretende o que é possível,
como posso esperar ter paz com todos,
quando não posso nem ter paz comigo?!

+*+Francisco Manuel de Melo+*+

* Lisboa, 1608
+ Lisboa, 1666
Se apartada do corpo a doce vida

Se apartada do corpo a doce vida,
domina em seu lugar a dura morte,
de que nasce tardar-me tanto a morte
se ausente d’alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
pois tudo sem Silvano é viva morte,
já que se foi Silvano, venha a morte,
perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
não te obriga querer vir dar-me vida,
como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se n’alma consiste a própria vida,
bem sei que se me tarda tanto a morte,
que é por que sinta a morte de tal vida.

+*+Violante do Céu+*+


imagem: C. C. Morais - Vida e Morte

* Lisboa, 1602
+ Lisboa, 1693
Vida que não acaba de acabar-se

Vida que não acaba de acabar-se,
chegando já de vós a despedir-se,
ou deixa por sentida de sentir-se,
ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
pois chega já de vós a dividir-se,
ou procura vivendo consumir-se,
ou pretende matando eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
antes no que padece se reporta,
por que não se limite o que padece.

Mas, viver entre lágrimas, que importa?
Se vida que entre ausências permanece
é só vida ao pesar, ao gosto morta?

+*+Violante do Céu+*+

* Lisboa,1602
+ Lisboa, 1693

A uma dama pródiga de favores

Se assim, formosa Helena, como és sol,
não deras tantas mostras de ser lua,
não te tivera o mundo por comua,
nem quem tanto te quer por caracol.

Olha que já te traz a fama o rol
por ser a tua grandeza a todos nua,
e pode ser que ganhes sendo crua
não acudindo como peixe ao anzol.

Ai! muda, muda, Helena, muda as modas,
e não sejas, oh! não! como é a corça,
que mais corre como a seta que a lastima.

Ama a quem te mais quer, e não a todos,
que repartindo o amor tem menos força,
e a coisa que é a mais comua não se estima.

+*+D. Tomás de Noronha+*+


* Alenquer - Estremadura, ?
+ Alenquer - Estremadura, 1651

Formoso Tejo meu...*

Formoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro que te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
que fôramos em tudo semelhante!

Mas lá virá a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem era de antes,
eu não sei se serei quem de antes era.

+*+Rodrigues Lobo+*+

*Leiria, 1580
+No rio Tejo por afogamento, 1622

*Soneto que também é atribuído a Luís Vaz de Camões

A um irmão ausente

Dividiu o amor e a sorte esquiva
em partes o sujeito em que morais;
este corpo tem preso onde faltais,
esta alma onde andais cativa.

Contente na prisão, mas pensativa,
porque este mal tão mal remediais,
que vós comigo lá solto vivais,
e eu sem mim e sem vós cá preso viva

Mas lograi desse bem quantos lograis,
que eu como parte vossa o estou logrando
e sinto quanto gosto andares sentindo;

cá folgo, porque sei que lá folgais,
porque minha alma logra imaginando
o que lograr não pode possuindo.

+*+Baltasar Estaço+*+

*Lisboa?, 1570
+ ?

Ausente, pensativo, solitário

Ausente, pensativo, solitário,
como se vos tivera ali presente,
dou e tomo as razões ousadamente
firme em amor, em pensamentos vário.

Quando venho ante vós com temerário
fervor renovo n’alma juntamente
quantos cuidados tive estando ausente,
que tudo em tal aperto é necessário.

Uns aos outros se impedem na saída
e querem cometer e não se abalam,
e vou para falar e fico mudo.

porém, meus olhos, minha cor perdida,
meu pasmo, meu silêncio, por mim falam,
e não dizendo nada, digo tudo.

+*+Estêvão Rodrigues de Castro+*+

* Lisboa?, 1559

+ ?, 1637

Sete anos de pastor Jacó servia


Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta vida”.

+*+Luís de Camões+*+

* c, 1524
+ Lisboa, 10 de junho de 1580

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Invocação à Saudade

Oh Saudade! Oh Saudade!
Minhas endechas* mal carpidas colhe;
Dá-me em lúgubre som, como o das vagas,
Que nas praias se quebram
Sem ordem, como os meus chorados cantos;
Uma voz sepulcral, como a da rola
Que em solitária selva se lamenta
Um acento funéreo, um eco lúgubre
Como o eco das grotas quando a chuva
Goteja reboando.
Ah! Corram minhas lágrimas! ah corram
A quantos meus gemidos escutaram
Oh! Saudade! oh Saudade!
Pois que em minha alma habitar,
E sem cessar me lembras país e Pátria,
Minhas tristes endechas serão tuas,
Saudade, serei teu... Saudade, és minha.

+*+Gonçalves de Magalhães+*+
in Suspiros poéticos e Saudades, 1836

Vocabulário

*endecha - Poesia fúnebre, muito triste; canção melancólica

Os meus versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo,
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!”
- Pois foi o teu olhar; a noite escura,
- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
.............................................................
Ai não descubras nunca o meu segredo!

+*+Florbela Espanca*+*+

in O livro D’ele
* Vila Viçosa- Alentejo, 8 de dezembro de 1894
+ Matosinhos - Douro, 8 de dezembro de 1930

*Flor Bela de Alma da Conceição Espanca

Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...

Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...

+*+Florbela Espanca*+*+
in O livro D’ele

* Vila Viçosa- Alentejo, 8 de dezembro de 1894
+ Matosinhos - Douro, 8 de dezembro de 1930

*Flor Bela de Alma da Conceição Espanca

Morri pela beleza, mas estava apenas
No sepulcro acomodada
Quando alguém que pela verdade morrera
Foi posto na tumba ao lado.

Perguntou-me, baixinho, o que me matara:
“A Beleza”, respondi.
“A mim, a Verdade – são ambas a mesma coisa,
Somos irmãos.”

E assim, como parentes que certa noite se encontraram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes.

+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+

I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When once who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly “Why I failed”?
“For beauty”, I relied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are”, He said –

And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

+*+Emily Dickinson+*+

* Amherst - Massachussetts, 10 de dezembro de 1830
+ Amherst - Massachusetts, 15 de maio de 1886


Fascina-me um olhar em agonia,
Por saber que é verdadeiro:
Não se fingem convulsões,
Nem simula-se uma dor.

Descem brumas sobre os olhos –
– É a Morte – impossível falsear
As contas, pela cruel angústia,
Na fronte alinhadas feito um colar.

+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+*+

I like a look of Agony,
Because I know it’s true –
Men do not sham Convulsion,
Nor simulate, a Throe –

The Eyes glaze once – and that is Death –
Impossible to feign
The Beads upon the Forehead
By homely Anguish strung.

+*+Emily Dickinson+*+

* Amherst - Massachusetts, 10 de dezembro de 1830
+ Amherst - Massachusetts, 15 de maio de 1886

A morta


Cheguei-me ao pé do leito, em prantos, e ela,

Como uma flor já pálida e esvaída,

Volveu-me aquele olhar onde brilhava aquela

Ânsia que traz a dor da despedida.


Busquei n’um beijo inda infiltrar-lhe a vida;

Mas o palor cobriu-lhe a face bela,

E a fronte, enfim, dobou desfalecida,

Como um languido lírio de capela...


Desde então paira a sombra desse leito

Na minh’alma, onde a noite eterna esconde

Meu louco ideal n’um túmulo desfeito.


E onde paira a minh’alma, em trevas? Onde?

Foi com ela, pois bato hoje no peito

E o coração também não me responde!


+*+Osório Duque Estrada+*+

imagem: Gustave Doré

Somnambula

N’um castelo sombrio como a dor
Em que gemia, pensando, o vento,
Dias de choro, noites de tormento
Triste eu passava, imersa em fundo horror.

Junto à porta, um dragão, sempre em furor,
Olhos em brasa, me guardava atento;
De súbito, ressoa, estranho evento!
D’entre o arvoredo uma canção d’amor.

Adormece o dragão, feroz, medonho,
D’aquela harpa ao som mavioso e lindo,
E eu vendo tudo azul, o céu risonho,

Atrás do novo Orpheu, sempre fugindo,
Pelos meandros do país do sonho,
Somnambula d’amor o fui seguindo.

+*+Zulmira de Mello+*+

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Miserere Mei!...

I

Eis me relatado só, na Rua da Amargura,
Como um mendigo vil, de rota capa escura
sem ter pátria, nem lei.
Desci, mais do que Jô, ao lameiro corruto.
– Ó piedosa Mulher das tranças cor de luto,
Miserere Mei!...

II

Por teus olhos subtis, mais raros que as safiras,
as aras poluí, fiz a batina em tiras
minha estola rasguei.
agora sou Dagon, Rei das dores insondáveis.
– Ó piedosa Mulher, dos olhos admiráveis,
Miserere Mei!...

III

Por teu amor, desci às trevas lacrimosas
Por teu amor, vaguei nas ruínas leprosas.
Por ti, uivei, chorei...
nas galés, hospitais, na Insônia, na Demência.
– Ó piedosa Mulher, Senhora da Clemência,
Miserere Mei!...

IV

Como Saul, cruzei as estradas devassas .
Nos cardos, nos tojais, nas alfurjas, nas praças,
os farrapos larguei
da minha alma sangrenta, estrelada em martírios,
– Ó piedosa Mulher, dos dedos cor dos lírios,
Miserere Mei!...

V

Por teu amor, desci às pávidas geenas,
dos não ouvidos ais, das não ouvidas penas.
Por ti, eu blasfemei.
Por ti, eu me estorci, nas palhas da enxovia...
– Ó piedosa Mulher, Flor da Melancolia,
Miserere Mei!...

VI

Bradam que te ofendi. – Mas os teus olhos castos
mal conheceram como, as mãos postas, de restos,
eu poli e escavei
com meus prantos de sangue, as lapas dos retiros.
– Ó piedosa Mulher, Senhora dos Suspiros,
Miserere Mei!...

VII

Arrastei-me no pó das solidões tisnadas.
No inferno das galés, nas insônias suadas,
de nostalgia, uivei...
como o proscrito infeliz nos grandes gelos russos.
– Ó piedosa Mulher, Senhora dos Soluços,
Miserere Mei!...

VIII

O suor empastou meus pávidos cabelos.
Junto ao leito febril, torvo de pesadelos,
Pai, nem Mãe encontrei!
– Ó piedosa Mulher, mãe das lágrimas mudas,
Miserere Mei!...

IX

Agora, livre enfim dos “Ciclos da Loucura”:
já transpondo os portais da “Babilônia Escura”,
mais órfão me encontrei.
Órfão, meu Deus, de ti, dos teus ais, teus ouvidos...
– Ó piedosa Mulher, Mãe doa Abandonados,
Miserere Mei!...

+*+Gomes Leal+*+
in A mulher de Luto

* Lisboa, 6 de junho de 1848
+ Lisboa, 29 de janeiro de 1921
O velho palácio

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se ouve o vento nos pinhais pregar.
Houve outrora um palácio hoje em ruínas...

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas, sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável...

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida da chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta.
Como nessa varanda apodrecida...

+*+Gomes Leal+*+

* Lisboa, 6 de junho de 1848
+ Lisboa, 29 de janeiro de 1921
O noivado do Sepulcro

Balada

Vai alta a lua! na mansão da morte
já meia-noite com vagar soou.
Que paz tranqüila; dos vaivens da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se!... Ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se,... ergueu-se!... Com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“Que a morte despe ilusão falaz:
“Quem entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

“Abandonada neste chão repousas
“Há já três dias não vens aqui...
“Ai, quão pesada me tem sido a lousa
“Sobre este peito que bateu por ti!

“Ai quão pesada me tem sido” e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão
E entre soluções arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

“Talvez que rindo dos protestos nossos,
“Gozes com outro de infernal prazer;
“E o olvido cobrirá meus ossos
“Na fria terra sem vingança ter!

– “Ó nunca, nunca!” de saudade infinda,
Respondeu um eco suspirando além...
– Ó nunca, nunca!” repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinais, airosas
Longas roupagens de nevada cor;
Singela viva de viva de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

“Não, não perdeste meu amor jurado:
“Vês este peito? reina a morte aqui...
“E já sem forças, ai de mim, gelado,
“Mais ainda pulsa com amor por ti.

“Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
“Da sepultura sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
“O mundo em trevas sem a luz do amor?

“Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– Ó vejo sim... recordação fatal!
– Foi à luz dela que jurei ser tua
“Durante a vida e na mansão final.

“Ó vem! se nunca te cingi ao peito,
“Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
“Quero o repouso do teu frio leito,
“Quero-te unido para sempre a mim!”

E ao som dos pios do cantar funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, de infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

+*+Soares Passos+*+
in Poesias – 1925

Soneto inglês n° 1

Quando a morte cerrar meus olhos duros
– Duros de tantos vãos padecimentos.
Que pensarão teus peitos imaturos
Da minha dor de todos os momentos?

Vejo-te agora alheia, e tão distante;
Mais que distante – isenta. E bem prevejo,
Desde já bem prevejo o exato instante
Em que de outro será não teu desejo,

Que o não terás, porém abandono,
Tua nudez! Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono.

Um dia chorarás... Que importa? Chora.
Então eu sentirei muito mais perto
De mim feliz, teu coração incerto.

+*+Manuel Bandeira+*+
in Lira dos Cinquent’Anos