sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Mal Secreto

Se, a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

+*+Raimundo Correia+*+


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Análise

Assunto: O autor fala sobre certos aspectos da personalidade humana.
Ideia central: "As aparências enganam"


Apartados:


1°) de cólera a máscara na face: O autor diz que a aparência pode esconder muito sofrimento. Isto por hipótese.
2°) Quanta gente venturosa: Fala sobre a faculdade que têm certas pessoas, de ocultar a sua dor, causando inveja ao próximo e, encontrando nisto sua única ventura.

Estudo do vocabulário em relação às ideias:

'Se' - indica uma hipótese de se poder ver o que vai no íntimo de cada um.
'Espuma' - termo que mostra a violência da cólera.
'Mora' - persistência da dor.
'Destrói' - mostra a violência e a persistência da dor.
'Cada' - todas as ilusões; uma por uma, à medida em que nascem.
'Estampasse' - a dor aparece claramente.
'Espírito que chora' - violência da dor.
'Máscara da face' - a expressão sugere hipocrisia.
'Quanta gente' - dá a ideia de muita gente, não da totalidade.
'Talvez' - dúvida da existência de tais pessoas quanto ao número.
'Inveja e piedade' - ideias opostas, mostrando o excesso de hipocrisia.
'Atroz inimigo' - e 'chaga concerosa' - duas expressões que reforçam a ideia de intensidade da dor.
'Recôndito' e 'invisível' - adjetivos que demonstram o disfarce da dor.
'Então' e 'agora' - estes termos indicam os dois planos em que o poema se desenvolve: o da hipótese e da realidade.
'Ri' - concretização da hipocrisia.
'Ventura única' - satisfação encontrada em enganar os outros.
'Parecer aos outros' - hipocrisia, preocupação em esconder o sofrimento aos olhos alheios.


Localização das características da Escola a que pertence o poema:

Encontramos em todo o soneto:
a) objetivismo;
b) tema universal;
c) análise psicológica;
d) predominio da razão sobre a sensibilidade;
e) finalidade moral;
f) linguagem cuidada;
g) preocupação com a forma.


Forma:
Métrica:

Se a cólera que espuma, a dor que mora.
N'alma e destrói cada ilusão que nasce.
Tudo que punge tudo que devora.
O coração no rosto se estampasse.

Soneto:
Versos isoméricos - decassílabos.
Ritmo:
Versos heterorrítmicos.
Rima:
Rimas alternadas nos quartetos e misturadas nos tercetos.
Rimas ricas:
chora agora
consigo inimigo
face causasse.
Rimas pobres:
Todas as outras
São todas consoantes e graves.
Estrutura estrófica: Soneto
Figuras:

Metáforas:
"cólera que espuma"
"a dor que mora n'alma"
"ilusão que nasce"
"tudo o que devora"
"tudo o que devora o coração" (metáfora e metonímia).
Anáfora:
"tudo .... tudo"

Hipérbato: as duas primeiras estrofes.


Quanto ao autor, em função de suas obras podemos dizer:


Demonstra através de sua obra grande magnitude e espírito de religiosidade. Se for analisado sob o ponto de vista parnasiano, pode ser considerado inferior a Alberto de Oliveira, todavia sob o ponto de vista do lirismo, é, indubitavelmente, muito mais marcante a natureza sentimental, retratando assuntos filosóficos através de seus poemas. Procura uma análise psicológica profunda, visando explicar os problemas que mais afligem a sociedade humana. Soube conciliar o racionalismo da forma perfeita à sua profunda sensibilidade. Segundo Silvio Romero (crítico literário, ensaista, poeta, filósofo, professor e político sergipano): "Tem mais sentimentos do que imaginação; mais coração do que faculdade criadora; mais ternura e graciosidade do que força. Meiga, discreta, contemplativa, sua musa tem provado o travor das lutas de nosso tempo; mas quando canta, sabe fazê-lo com certa compostura, num tom de dignidade, que lembra produções da musa clássica, quando falava, por exemplo, pela boca de um Racine".


Manuel Bnadeira diz sobre o autor: "Temperamento doentio, melancólico e pessimista, Raimundo Correia se distingue pela emoção grave e concetrada da sua poesia. A forma, com ser tão correta quanto a de Alberto de Oliveira e Bilac, e maos despojada e ao mesmo tempo mais sutil, mais musical. Certamente é o maior artista do verso que já tivemos".




extraído da Nova Biblioteca Prática da Língua Portuguesa - AGE




2 comentários:

Lucas Medeiros Lopes disse...

=0
Tinha um trabalho escolar pra hoje, justamente sobre esse soneto, esse post explica tudo direitinho, pena que só encontrei agora, mas tá de parabéns pela análise.

Anônimo disse...

Q explicação maravilhosa.Parabéns!Tudo q eu precisava achei aqui.Obrigada